MÃE-ÁFRICA
Rogério Andrade Barbosa autor do ABC DO CONTINENTE AFRICANO – Edições SM, 2007
- Como é a África? – me perguntam, ao saber que vivi por lá durante uns bons e saudosos tempos.
- Qual África? – respondo, tentando explicar que: “*são 54 países, onde convivem homens e mulheres de culturas diferentes, que se expressam em mais de mil línguas e incontáveis rituais e práticas religiosas” (1).
De acordo com as palavras do escritor moçambicano Mia Couto, “este continente é, ao mesmo tempo, muitos continentes. Os africanos são um entrançar de muitos povos. A cultura africana não é uma única, mas uma rede multicultural em contínua construção.” (2)
* Nei Lopes (3), compositor, escritor e estudioso da cultura afro-brasileira ressalta o saber africano no campo das artes, ciências, técnicas e filosofia. E reafirma o passado de cultura, até mesmo anterior ao da civilização greco-latina, raramente mostrados no cinema, na televisão ou nos livros.
Todo esse legado cultural trazido pelos escravos africanos, ainda permanece, infelizmente desconhecido por boa parte de nossas crianças. A lei federal 10.6931, sancionada em 2003, tornando obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio, público e particular, em disciplinas como história e literaturas brasileiras, é uma conquista da sociedade e pretende justamente possibilitar que nossas crianças percebam a importância desses valores civilizatórios na sociedade brasileira.
Os livros destinados ao público infanto-juvenil, abordando temáticas afro-brasileiras - contos, lendas, cerimônias e festejos tradicionais - têm contribuído para o conhecimento da realidade africana, acentuando, entre outras coisas, a sua ampla diversidade religiosa.
Durante os dois anos que trabalhei como professor-voluntário da ONU, na Guiné-Bissau, tive a oportunidade de testemunhar uma amostra desse enorme painel.
Na capital, Bissau, uma parcela da meninada freqüentava as missas dominicais da igreja católica. Por sua vez, crianças islamizadas, reuniam-se nos templos corânicos ou mesmo ao ar livre, com suas inseparáveis tabuinhas de escrever ao colo. Compenetradas, repetiam os versículos sagrados do Alcorão, sob a vigilância de um severo mestre. Mas, principalmente nas aldeias, elas mantinham-se fiéis as divindades cultuadas por seus ancestrais, reafirmando a diversidade dos cultos religiosos no imenso continente africano.
Os africanos trazidos para o Brasil como escravos, trouxeram, também, os seus deuses. Portanto, é importante que nossas crianças reconheçam e respeitem as mais diversas religiões praticadas em nosso país, como as de origem africana, indígena, cristã, judaica e islâmica, entre tantas outras. E os livros de literatura, sem intenção de doutrinação, podem ser excelentes aliados na compreensão dessa diversidade.
(1) apresentação da professora Rita Chaves para o ABC do Continente Africano
(2) referência ao texto de Mia Couto
(3) introdução de Nei Lopes para o ABC do Continente Africano |