O QUE É QUALIDADE NA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL? COM A PALAVRA O ESCRITOR
“O Futuro Vem do Passado”
Antes de ser escritor fui, e continuo a ser, leitor. Os livros e, também, as histórias em quadrinhos, sempre foram meus grandes companheiros desde a meninice. As páginas, plenas de aventuras e perigos, eram tapetes voadores que me levavam a lugares distantes, misteriosos, encantadores...Bússolas que nortearam o meu destino e me abriram as portas do mundo.
As primeiras histórias foram as que meus pais me contavam na hora de dormir. Assim que aprendi a ler, apaixonei-me pela obra de Monteiro Lobato. Ao lado de Pedrinho participei de caçadas inesquecíveis, perdi-me no labirinto habitado por um terrível Minotauro e descobri a Geografia, a História, a Gramática e a Aritmética de uma forma divertida. Sentado aos pés de Dona Benta, ouvi, atento, os serões que ela desfiava de um novelo infindável.
Tenho até hoje, um volume de capa dura, ilustrado, das célebres Histórias da Baratinha, narrando, de acordo com a apresentação: setenta esplêndidos e novos contos infantis, tristes e alegres, todos eles moralíssimos...
Mais tarde dormi em tendas de beduínos, no meio do deserto, embalado pelas lendas árabes, recontadas por Malba Tahan. Sombras de bruxas, crianças perdidas, lobos e outros personagens dos contos recolhidos pelos irmãos Grimm, rondavam, ao anoitecer, as paredes do meu quarto. Hans Christian Andersen fez com que eu me derretesse em lágrimas por causa de um soldadinho de chumbo. Como Peter Pan, também não queria crescer e segui em busca de aventuras para a terra do nunca. Em seguida, nas pegadas de Alice, enfiei-me na toca de um coelho, rumo ao País das Maravilhas.
Depois, com pena de Scherazade, escondi-me num harém suntuoso, torcendo pela vida da linda princesa que, durante mil e uma noites, contou histórias de gênios e lâmpadas mágicas para um malvado sultão. A expressão abre-te sésamo, decifradora dos segredos da caverna de Ali Babá e os 40 Ladrões, repleta de jóias reluzentes, nunca mais se apagou da minha memória.
Uma vez, durante as férias escolares, trabalhei numa banca de jornal. Foi uma festa ter aquele monte de revistas de quadrinhos a meu alcance. Aventurei-me com Mickey e Pato Donald mundo afora. E dava uma de detetive, imitando o Bolinha, sempre às voltas com a “encrenqueira” Luluzinha. Na cabine da nave espacial de Flash Gordon, voei pelo espaço até o Planeta Mongo. Como todo garoto eu queria imitar as mágicas de Mandrake, cavalgar com o Zorro, usar o uniforme e a máscara do Fantasma, manter a identidade dupla do Batmam, ser um Príncipe Valente ou ter o peito à prova de balas do Super-Homem.
Adolescente, armado até os dentes e com um papagaio empoleirado no ombro, briguei com piratas cheirando a rum, numa ilha cheia de tesouros. Desejava ter a pontaria certeira do arqueiro Robin Hood, que roubava dos ricos para distribuir aos pobres. Dei a volta ao mundo, fascinado, em 80 dias. Na rota de Marco Polo, com os olhos deslumbrados, visitei as diferentes culturas da Ásia. Penetrei pela cratera de um vulcão, suando em bicas, até ao centro da terra. Fugi das masmorras de uma prisão a nado junto com o Conde de Monte-Cristo. Quem descerrou-me o livro deslumbrante da selva indiana, foi Mowgli, o menino-lobo. O chamado selvagem de um cão, destemido, levou-me, à procura de ouro, ao Alasca. Vagabundeei com Tom Sawyer, ao som das rodas enormes, formadas por pás, dos barcos a vapor do rio Mississippi. Um viajante irrequieto, Gulliver, arrastou-me para regiões povoadas de gigantes e de homens do tamanho de formigas. Acompanhei, com o coração aos saltos, a caçada à gigantesca baleia Moby Dick. Náufrago, sobrevivi aos perigos e intempéries, ao lado de Robinson Crusoé, num ilhéu desabitado.
As leituras transportaram-me ao outro lado do mar, ao continente africano, atrás das lendárias minas perdidas do rei Salomão. Guiado por Tarzan, o rei dos macacos, enfrentei feras sanguinárias, sem jamais imaginar que tempos depois iria dar aulas como professor-voluntário da ONU em um país chamado Guiné-Bissau. E, aí sim, conheceria a África, sem os estereótipos negativos que uma parte da literatura, da indústria dos quadrinhos e do cinema americano tentaram impor ao resto do mundo.
Houve uma época, em que sonhei ser um investigador, sagaz e cerebral, capaz de solucionar crimes e mistérios à la Sherlock Holmes. Com um frio escorrendo pela espinha admirei os contos sobrenaturais de Allan Poe. Sofri com o amor trágico de Romeu e Julieta. Diverti-me com as trapalhadas de Dom Quixote e, como nos romances de capa e espada, duelei feito um espadachim do rei, ombro a ombro com D’Artangnan e os Três Mosqueteiros - Aramis, Porthus e Athos.
Jovem, encantei-me com os versos de Castro Alves, principalmente por sua calorosa defesa da abolição da escravatura e entristeci-me com a morte prematura do galante poeta. Com Jorge Amado, conhecedor dos segredos e magias do povo baiano, percorri os becos e vielas de Salvador e, sob a luz dos trapiches e o rufar dos atabaques, aprendi truques e safadezas com meninos abandonados, os capitães da areia que, para nossa indignação, continuam a perambular desamparados pelas ruas de nosso país.
Universitário, revoltei-me com as vidas de nossos irmãos nordestinos, retratados por Graciliano Ramos, secamente. Eduardo Galeano injetou-me, perplexo, nas veias abertas, o drama de nossa América Latina. Com Gabriel García Márquez, aprendi que o dever de um escritor é o de escrever bem.
Essas leituras e tantas outras, me influenciaram no ofício de escritor. Elas tinham qualidade. Encantavam. Sabiam prender a atenção. Informavam. Formavam... Os meus livros, tenho consciência, guardam marcas indeléveis desses autores.
De acordo com os versos de Veronique Tadjo, autora da Costa do Marfim:
“Escrevo para o menino que fui... Escrevo para a memória, escrevo para o futuro... Para dar um livro a cada criança... Para atravessar a ponte que me separa dos outros...Para encontrar respostas as minhas perguntas...Para recriar a palavra contada... Para habitar o mundo.”
Eterno aprendiz, na trilha das viagens etnográficas de Mário de Andrade, viajo pesquisando e recolhendo histórias. Seja da boca das crianças ribeirinhas do rio São Francisco, ou entrevistando artesãs, como a lendária Ana das Carrancas, em Petrolina.
– Meu sangue é negro, mas a minha alma é de barro – afirmou-me a octagenária ceramista.
Assisto a apresentações de mamulengueiros, violeiros e cantadores. Em Parintins, no coração da Amazônia, os professores e professoras de uma oficina literária me presentearam com um manancial de lendas sobre seres encantados que correm e saltam na escuridão, além de me confidenciarem uma infinidade de relatos dos botos e botas sedutores que habitam as profundezas do rio amazonas. Outra experiência impressionante foi conhecer e conversar com moradores de uma comunidade remanescente de um quilombo em Macapá, dignos guardiões da memória e das tradições rurais afro-brasileiras.
As festas de bois, congadas, reisados, ladainhas, folias, e de tantas outras manifestações da nossa cultura popular - feito a inesquecível dança de São Gonçalo, que acompanhei madrugada adentro num lugarejo às margens do Velho Chico - são fontes inesgotáveis em minhas narrativas. Essas manifestações fazem parte de um baú fabuloso, que guarda e transmite sabedorias passadas de geração a geração. O povo, dizem, aumenta, mas não inventa. Segundo um antigo ditado, na vida tem muita coisa que se vê e outras que não. Mas, se tem nome, conforme me assegurou um pequeno engraxate, em Bom Jesus da Lapa, é porque existe!
Em minha biblioteca, conservo, como relíquia imprescindível, os dois volumes do Dicionário do Folclore Brasileiro, do genial Câmara Cascudo, esfrangalhados de tantas consultas e reconsultas. Cecília Meirelles dizia que, “uma criatura que não sabe canções de roda, adivinhas, brinquedos, histórias e parlendas, não pode ser feliz, não pode educar seus filhos, não entende nada de si nem de seus conterrâneos, nem do ser humano, em lugar nenhum do mundo”. Já Ariano Suassuna, em uma de suas “aulas” sobre as raízes populares da cultura brasileira, demonstrou que, quanto mais o autor mergulha no universo do povo e da pátria, mais universal ele se torna.
Muniz Sodré, em um artigo sobre cultura, diversidade cultural e educação, realça a importância do saber popular:
“... Durante muitos anos, a distinção social no Brasil se fazia pela posse do diploma de bacharel, de doutor, contra o analfabeto, o iletrado... Mas é preciso destacar que, apesar de não ter“letras”, largas frações das classes pobres subalternas no Brasil portam uma forte cultura popular. Apesar de lhes faltar renda, elas respondem por uma tradição de cultura popular rica e diversificada.”
A tradição oral afro-brasileira, tema de muitos de meus livros, me encanta, justamente, por sua riqueza e diversidade. As nossas histórias, danças, canções e saberes tradicionais têm uma grande influência da Mãe-África. Personagens como a “Velha Totonha” de José Lins do Rêgo, a “Vovó Candinha” de Viriato Corrêa e a “Tia Nastácia” de Monteiro Lobato; eram representantes de velhos negros e negras escravizados, que percorriam as fazendas e engenhos no tempo colonial, contando histórias da mesma maneira que os griots, verdadeiras bibliotecas vivas, encarregados de perpetuarem a tradição e a proeza dos povos africanos. Esses mestres da palavra, que mantêm um elo entre o passado e o futuro, são detentores da força do baobá, árvore gigantesca e sagrada, que só consegue elevar-se nos ares porque suas raízes estão profundamente enterradas na terra mãe.
Afinal, somos um país pluri-étnico e multicultural. Gilberto Freyre, em seu polêmico livro abordando a vida nas casas-grandes e senzalas, nos dá nas páginas iniciais de sua obra, o seguinte panorama:
“Formou-se na América Tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio – e mais tarde de negro – na composição.”
As raízes mestiças do povo brasileiro são reforçadas por Sérgio Buarque de Holanda:
“Os portugueses... eram já ao tempo do descobrimento do Brasil, um povo de mestiços.”
Darcy Ribeiro afirma que somos um povo nação, descendentes de velhos povoadores e imigrantes:
“Mais que uma simples etnia, porém, o Brasil é uma etnia nacional, um povo-nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino.”
Nesse aspecto, os livros destinados aos jovens têm um papel fundamental: o de contribuir para que a criança sinta-se orgulhosa de pertencer a um povo, seja ele qual for, e de aprender a respeitar às diferenças, contribuições e valores de sua própria cultura e de uma cultura diferente da sua. Para se valorizar é necessário conhecer. As páginas e as ilustrações de um livro são como um espelho. E se a pessoa não vê a sua imagem refletida, sente-se inferior, desinteressada, desmotivada. Daí a temática de meus textos, pois conforme os versos de uma canção popular:
“Sou negro,
sou branco,
sou índio...
sou brasileiro”
Para o público juvenil, além de escrever histórias com muita aventura e ação, abordo, geralmente, assuntos polêmicos como prostituição infantil, tortura, desaparecidos políticos, violência, drogas, miséria... Se minhas histórias são passadas no Brasil, meus personagens, logicamente, têm de conviver com as mazelas de nossa sociedade. Acredito que um autor, como diz a letra de uma canção, tem de estar onde o povo está. Ou seja, dever retratar a realidade de seu país, por mais dolorosa que ela possa parecer. Em meus textos, a dor, a perplexidade e a revolta estão quase sempre presentes. Na ficção, ao contrário da vida real, soluções mágicas ou providenciais resolvem os conflitos. Mas, para uma parcela significativa da população brasileira, a luta pela sobrevivência vem assumindo proporções dramáticas. Então, é por isso que costumo escrever sobre temas delicados – mesclando ficção com informações coletadas na imprensa, nas pesquisas e em viagens.
Parodiando Pablo Neruda, também confesso que vivi. A vida de escritor, viajando, lendo, escrevendo e recriando é fascinante. Rendo, então, homenagem aos escritores citados e, ao povo simples do meu país que aprendeu no livro da vida, folheando as páginas dos astros, dos rios e das florestas. Às crianças e aos professores e professoras, nossos grandes parceiros. Muitos caminham léguas por estradas esburacadas, remam em frágeis canoas ou andam durante horas por trilhas abertas na floresta rumo a escolas, muitas vezes sem merenda, sem biblioteca, ou mesmo luz elétrica. Aos que desenvolvem projetos e programas há tantos anos que, apesar das dificuldades, vêm propondo alternativas para que nos tornemos um país de leitores. E aos meninos e meninas que me escrevem, carinhosamente, de todos os estados, contando como um livro mudou suas vidas ou que sonham em um dia ser escritores.
Em 2003, recebi um e-mail, comovente, de uma leitora:
“Olá Rogério! Hoje tenho 19 anos e li, em 1994, o seu livro “Rômulo e Júlia, os Caras-Pintadas” quando eu tinha 10 anos. O meu irmão estava na oitava série e a professora pediu para ele ler, mas fui eu que li e contei a história para ele. De lá para cá, acho que já li o livro umas vinte vezes e sei a história praticamente de cor. Gostei tanto do livro que, na época, enviei uma carta para a editora e você respondeu! O que foi mais legal. Por causa de seu livro eu passei a me interessar pela nossa história recente, da ditadura e da política. E hoje acho que sei tanto sobre o assunto que, quando vou ler alguns livros, eu fico achando que estão incompletos. Por causa de seu livro, por muito tempo, eu quis fazer Jornalismo mas vou fazer Ciências Sociais, que não deixa de ter a ver com o seu livro. Obrigada por ter sido tão importante na minha vida de estudante.”
Esse, para mim, é o maior prêmio que um autor pode receber.: - quando, de acordo com Ana Maria Machado, o leitor entende e é tocado pelo texto.
E também não posso me esquecer de inúmeros escritores e ilustradores contemporâneos, responsáveis pelo salto de qualidade que a nossa literatura infantil e juvenil vêm tendo nos últimos 25 anos, tanto no nível do texto, como das ilustrações e dos projetos-gráficos. Vide as traduções, versões e os prêmios internacionais recebidos por nossos autores. Isso, sim, é qualidade!
Enfim, à maneira dos griots, conto histórias por meio dos livros, convidando os jovens leitores a viajar e a sonhar pelo mundo da literatura.
Uma lenda esquimó, diz que: as palavras, antigamente, eram mágicas, tomavam vida e podiam realizar o que as pessoas quisessem. Assim é, e ninguém sabe explicar o porquê”.
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------------------ - Viagem ao Centro da Terra – adaptação de Lúcia Tulchinski - Editora Scipione – São Paulo – 2003.
QUADRINHOS:
Mickey / Pato Donald – Editora Abril
Luluzinha/ Bolinha – Editora O Cruzeiro
Batman.- Editora Ebal
Zorro – Editora Ebal
Super-Homem - Editora Ebal
Fantasma – Editora Rio Gráfica
Flash Gordon – Editora Rio Gráfica
Mandrake – Editora Rio Gráfica
Príncipe Valente – Editora Rio Gráfica |