“Dos Quatro Cantos da África os Encantos dos Contos Orais Africanos”
(Professora Doutora Eliane S. Dias Debus – UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina). O BALAINHO (Boletim de Literatura Infantil e Juvenil – Ano VII – setembro / 2006 – N. 29 – Joaçaba – SC).
O escritor Rogério Andrade Barbosa, ao retornar na década de 1980 da Guiné-Bissau, onde ficou por dois anos como professor voluntário da Organização das Nações Unidas (ONU), trouxe na bagagem diversos contos africanos que soube recontar sem perder o fio imemorial da oralidade que enreda essas narrativas. O respeito à ancestralidade e o valor dos “griots”, contadores de histórias, estão presentes em sua produção literária de forma singular.O escritor Rogério Andrade Barbosa, ao retornar na década de 1980 da Guiné-Bissau, onde ficou por dois anos como professor voluntário da Organização das Nações Unidas (ONU), trouxe na bagagem diversos contos africanos que soube recontar sem perder o fio imemorial da oralidade que enreda essas narrativas. O respeito à ancestralidade e o valor dos “griots”, contadores de histórias, estão presentes em sua produção literária de forma singular.
CONTOS AO REDOR DA FOGUEIRA (Agir, 1990) é composto de duas narrativas “Kumbu, o menino da Floresta Sagrada”e “Buanga, a Noiva da Chuva”, nas quais estão presentes crenças, tradições e tabus de povos africanos. A primeira narrativa traz o relato de um tabu, em alguns povos africanos, em torno do nascimento de gêmeos, o que, diferentemente de outras culturas, é visto como mau presságio e por isso uma das crianças é abandonada na floresta. Kumbu supera seu triste destino do abandono da floresta: ele ganha o colo de Koya e poderes mágicos, passa por infortúnios e com maestria dribla a morte também na juventude. Já a segunda narrativa é baseada numa tradição que teve seu último registro na África Oriental em 1923, que consiste na seleção de jovens virgens para servirem de sacerdotisa para os deuses da chuva. Escolhida para ser a mulher do espírito da chuva, Buanga é afastada dos seus na infância e vive em reclusão, mas é raptada de seu destino por Demba, seu amigo de infância, agora um belo jovem.
O livro DUULA, A MULHER CANIBAL, Um Conto Africano (DCL, 2000) recria o relato mítico da tradição oral africana, em especial do povo somali, que tem as mulheres-canibais como protagonistas. A metamorfose da jovem e bonita pastora Duula em horripilante mulher canibal é descrita de forma magistral, e os leitores aos poucos vêem crescendo diante de si aquela figura de estranhos poderes que “come carne crua e rói ossos de seres humanos”. No entanto, a transformação é promovida por elementos sociais e não mágicos: a fome, a miséria e a seca acabaram com seus familiares e a deixaram abandonada na solidão do deserto.
Como o próprio autor em suas notas que introduzem a narrativa, o diálogo com outros contos populares fica visível nessa narrativa. Assim, é difícil o leitor não aproximar as aventuras do casal de irmãos gêmeos Askar e Mayran daquelas de João e Maria; não perceber nas advertências da mulher canibal o mesmo discurso do temível Barba Azul; assim como é impossível deter-se no diálogo de apresentação entre os irmãos e Duula sem reviver na memória a narrativa de Chapeuzinho Vermelho.
A narrativa bíblica da travessia do Mar Vermelho surge para salvar os irmãos e destrir Duula. Entre as tempestades de areia do deserto e o cheiro de carne humana apodrecida e ossos acondicionados em vasos de barro, esse livro encanta e amedronta; espanta e acalanta.
O FILHO DO VENTO(DCL, 2001) reconta uma lenda dos bosquímanos, povo nômade que habita o deserto do Kalahari. Enquanto o vento “zune lá fora”, a mãe narra aos seus dois filhos, Dabé e Kauru, a lenda de seu povo sobre o filho do vento: um solitário menino, o filho do vento, encontra Nakati, menino de sua idade, e com ele joga bola, sem, no entanto, revelar a sua identidade. Alertado pela mãe, Nakati descobre o segredo do seu companheiro de brincadeiras e o perigo de pronunciar o seu nome Fuuuuuuuuu Shuiiiii. Terminada a narração, a mãe que a contou alerta os dois filhos para jamais pronunciarem o nome do filho do vento, pois perigos na certa surgiriam. A dimensão utilitária do narrado e o tom de conselho da narradora nos remetem ao que Walter Benjamim (1994, p. 200) descreveu como partes integrantes da natureza da verdadeira narrativa.
Em COMO AS HISTÓRIAS SE ESPALHARAM PELO MUNDO (DCL, 2002) o escritor narra a lenda do povo “ekoi”, da Nigéria. A narrativa é uma viagem aos quatro cantos da África conduzida por um curioso e inteligente ratinho. Esse personagem como que reacende a imagem de um “griot”a colecionar histórias, desvendando os aspectps culturais dos povos africanos: no cotidiano das savanas, mulheres que com os filhos amarrados às costas fazem suas atividades domésticas, ferreiros que nos fornos de barro dão vida aos metais, tecelãs que tecem com fios coloridos as suas roupas, crianças que espantam os corvos dos milharais; na escuridão da floresta de Ituri, a dança dos pigmeus; na cidade de Ifé, os rituais em homenagens aos orixás; o silêncio dos mosteiros na Etiópia; a magnitude das pirâmides do Egito; as canções entoadas nas mesquitas; as vozes alteradas nos bazares de Marrocos; os barcos repousando suas velas no porto do rio Níger... Ao final de sua incursão mágica, o rato tece as histórias em cordões mágicos que são soltos pelo vento e se espraiam a outros espaços...
Rogério Andrade Barbosa soube como aproximar as crianças brasileiras de uma cultura distante e ao mesmo tempo próxima, presente nas raízes de nossa formação cultural, ao trazer para a cena a diversidade cultural de regiões distintas da África; a representação dos “griots”, guardiões da palavra, que carregam consigo a continuidade das lendas, provérbios e canções desses povos.... elas permitem que o leitor reflita sobre a diversidade e a multiplicidade cultural que o rodeia, contribuindo para uma formação em que a pluralidade cultural é edificada pela singularidade de cada indivíduo. |