A RECRIAÇÃO DAS MANIFESTAÇÕES POPULARES NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL
(Rogério Andrade Barbosa – Belo Horizonte, 2006)
O
Brasil, nosso imenso país, por sua formação étnica,
apresenta uma grande diversidade cultural. Também pudera! Nós
somos frutos da união entre diversos povos e crescemos convivendo
com essa pluralidade de culturas. Conforme os versos de uma canção
de Rubinho do Vale, somos índios, brancos e negros. Enfim, brasileiros!
Portanto,
as diferenças
culturais devem ser valorizadas e, não, ignoradas ou alvo de discriminação.
Em
meus livros, baseados em viagens e pesquisas que faço pelo Brasil
afora, sempre que posso, procuro abordar essa multiplicidade, valorizando,
principalmente, a sabedoria popular e as diferenças culturais e étnicas.
Quanto
mais me aprofundo nas pesquisas, quanto mais faço viagens em
busca de histórias para
meus livros, mais me surpreendo com as inúmeras versões de um
mesmo conto, recolhidas por folcloristas, tanto no Brasil como em diversos
países da Europa, Ásia e África.
Assisto a apresentações
de mamulengueiros, violeiros e cantadores. Topo qualquer parada, estrada
ou canoa – me enfio
em qualquer lugar, seja onde for, para uma escutar uma história
nova, ou a variante de um conto.
Anoto tudo em uma caderneta:
a história, frases ou provérbios
que escuto, letras de músicas, informações sobre
a cultura e a população de determinada região. É lógico
que recolho muitos dados em livros. Confesso que sou um rato de bibliotecas
e de sebos e, aonde vou, procuro adquirir obras e cds sobre a cultura
popular. Além disso, minha casa se transformou num pequeno museu
de peças de artesanato de várias regiões.
O povo,
dizem, aumenta, mas não inventa. Segundo um antigo ditado, na
vida tem muita coisa que se vê e outras que não. Mas, se
tem nome, conforme me assegurou um pequeno engraxate em Bom Jesus da
Lapa, é porque existe!
As representações
e cerimônias populares, como a inesquecível dança de São
Gonçalo, que acompanhei madrugada adentro num lugarejo às margens
do Velho Chico, são fontes inesgotáveis em minhas narrativas.
Essas manifestações fazem parte de um baú fabuloso, que
guarda e transmite sabedorias passadas de geração a geração.
Em
2000, a bordo de uma antiga barca pelo rio São Francisco, ao lado da
ilustradora mineira Ana Raquel e de outros pesquisadores, participei de um
projeto chamado Caminho das Águas.
Nas povoações onde parávamos, recolhíamos histórias,
diretamente da boca das crianças ribeirinhas.
Na carinhosa apresentação
escrita por Maria Antonieta Cunha para coleção Ciranda do Rio
São Francisco, ela diz:
“À beira
do Rio São Francisco – o velho Chico -, crianças contam
histórias que contaram as avós das avós de agora.: O amor
da Sereia dos Cabelos de Ouro, as estripulias do endiabrado Romãozinho,
o encontro com o Caboclo-D’água...
...Só quem tem compromisso com o país,
com sua gente e sua natureza, pode participar de um projeto tão abrangente
e significativo como o chamado Caminho das Águas... Só quem tem
muita coragem sonha reescrever e redesenhar o que a voz e a mão de crianças
ribeirinhas contam e desenham. Só o artista dá conta de transformar
tudo isso em belos livros de histórias para percorrerem o Brasil e,
juntando medo, fantasia e muita alegria, fazerem nosso país mais (re)conhecido
e amado.”
Em 2005, emocionado, acompanhei em Itapecerica,
no interior de Minas Gerais, os festejos do Reinado do Rosário - plenos
de religiosidade, sincretismo e mistérios insondáveis- aliados às
danças e ritmos contagiantes de “moçambiques, marinheiros,
catupés e congos de cidades como Perdões e Formiga. Os
mestres, capitães, músicos e integrantes” dos diversos
grupos carregavam suas bandeiras, como verdadeiros símbolos da
resistência de nossas raízes culturais. Todo o material
recolhido faz parte do livro, “O Guardião da Folia”.
Já em
Parintins, no coração da Amazônia, os
alunos de uma oficina do Proler para professores, me presentearam com
um manancial de lendas sobre seres encantados que correm e saltam na
escuridão, além de me confidenciarem um mundaréu
de casos protagonizados por botos galanteadores. Até então,
desconhecia histórias de botas, tão sedutoras quanto seus
machos – capazes de arrastar rapazes incautos pras profundezas
do Amazonas.
Em Porto Velho, capital de Rondônia, numa voadeira
pelo barrento rio Madeira, o piloto me disse que conhecia uma senhora
que criava um boto num cercado atrás de sua casa de palafita.
A idosa ribeirinha dizia que o “encantado” era pai do netinho
dela!
Outra experiência impressionante foi conhecer e conversar
com os moradores de uma comunidade remanescente de um quilombo em Macapá,
dignos guardiões da memória e das tradições
rurais afro-brasileiras. Daí nasceu um livro intitulado Rio Acima,
Mar Abaixo. Um jogo de palavras inspirado pelo Marabaixo, o folclore
local.
Influenciado por meu trabalho durante dois anos como professor-voluntário
a serviço das nações unidas na Guiné-Bissau,
uma ex-colônia portuguesa na África, venho me dedicando
a escrever histórias que tenham como cenário o fabuloso
universo da literatura tradicional africana. Os contos populares trazidos
pelos diferentes povos escravizados – que nos legaram um mundo
de lendas, mitos, provérbios e adivinhas passadas de geração
em geração – são recontados em mais de vinte
livros.
Na Coleção Bichos da África – detentora
de vários prêmios e traduzida para o inglês, alemão
e espanhol – destaco a importância dos contadores de histórias,
donos de memória prodigiosa e verdadeiras enciclopédias
vivas encarregados de perpetuarem a tradição e a proeza
de seus povos.
No Brasil, a literatura infantil e juvenil é hoje
um dos segmentos mais destacados do mercado editorial. Escritores, como
Ricardo Azevedo e Daniel Mundukuru, têm abordado com propriedade
as questões
de diversidade e multiplicidade cultural em suas obras destinadas aos
jovens leitores.
Eterno aprendiz, na trilha das viagens de Mário
de Andrade, viajo pesquisando, recolhendo histórias e registrando
frases saborosas, como a da lendária Ana das Carrancas, em Petrolina:
-
Meu sangue é negro, mas a minha alma é de barro – afirmou-me
a octagenária ceramista.
Acredito que as recriações
das manifestações
populares na literatura infanto-juvenil têm um papel fundamental:
o de contribuir para que o jovem sinta-se orgulhoso de pertencer
a um povo ou minoria étnica, seja ele qual for, ao mesmo tempo
em que os outros leitores devem aprender a respeitar os valores e contribuições
de uma cultura diferente da sua.
Termino citando Cecília Meireles:
...Uma criatura que não sabe canções
de roda, adivinhas, brinquedos, histórias, parlendas, não
teve infância, está mutilada, não pode ser feliz, não
pode educar seus filhos, não entende nada de si nem dos seus conterrâneos,
nem do homem, em lugar nenhum do mundo...” |