ENTREVISTA: DOCE DE LETRA
(ROSA AMANDA) – Março/2000
1. O que surgiu primeiro: o escritor ou o contador de histórias?
O escritor e, posteriormente, o contador de histórias ( graças a minha experiência como professor e ator amador de teatro). Mas, quem surgiu primeiro mesmo foi o leitor. Desde garoto andava sempre com um livro ou um gibi debaixo do braço. Adolescente, em plenas férias escolares, trabalhei numa banca de revistas substituindo um colega de colégio. Foi uma festa ter aquele monte de revistas e livros de bolso ao meu alcance. As páginas mágicas me transportavam para lugares distantes, misteriosos, encantadores... A Ilha do Tesouro, A Volta ao Mundo em 80 Dias, As Viagens de Guliver...Vibrava com as proezas de Tarzan, e me encantava com os mistérios desvendados por Sherlock Holmes. O meu grande sonho era viajar. Percorrer outras terras que eu já conhecia graças às minhas leituras.
2. O que são os griots?
São os contadores tradicionais de histórias, donos de memória prodigiosa, verdadeiras enciclopédias vivas encarregados de perpetuarem a tradição e a voz dos povos africanos.
3) Ainda existem griots de verdade na Guiné-Bissau? Você conheceu alguns deles?
Sim, principalmente no interior, onde são muito respeitados. Tive a oportunidade de presenciar alguns deles em ação e me encantei com o modo teatral que utilizam para dominar e encantar as platéias, seja embaixo de uma árvore, ao redor de uma fogueira ou em praça pública.
4. Como você percebe a influência dos contadores de histórias na literatura que você produz?
Nos livros que escrevi baseados na tradição africana é nítida essa influência: ainda mais quando tento reproduzir a grandiloqüência e a magia arrebatadora das narrativas orais.
4. Nos seus primeiros livros – como na série Bichos da África - era nítida a sua preocupação com o resgate dos contos da tradição popular. Mas, quando começou a escrever para adolescentes, você passou a incorporar cada vez mais elementos da realidade, a ponto de misturar ficção e jornalismo. Podia falar um pouco dessa trajetória? Como se deu essa transição de linguagens?
Meus primeiro livros, final dos anos 80 e começo dos 90 – no auge da comemoração do centenário da abolição da escravidão – refletem esse momento e uma necessidade do mercado editorial, pois quase não haviam livros que abordassem a cultura africana. Nos livros pra adolescentes, que são os meus preferidos, já que posso abordar uma gama de assuntos com mais profundidade, a trajetória tinha que ser diferente. A linguagem quase jornalística talvez seja pela minha sede de informações: sou um leitor compulsivo de jornais e revistas, sem falar que estou sempre ligado nos noticiários tanto na TV como no rádio. Além disso, viajei muito pelo mundo afora. Daí o fato de minhas histórias terem cada vez mais elementos da realidade, misturados com ficção e jornalismo.
4. Nos seus livros mais recentes, a influência da linguagem cinematográfica e televisiva é cada vez mais presente. Alguns deles parecem prontos para virar roteiros. Isso é intencional?
Cinema é outra de minhas paixões. Na infância adorava assistir aqueles seriados cheios de aventuras que passavam nas matinês de sábados ( estou ficando velho...). Os capítulos sempre terminavam com o mocinho em apuros. Eu ficava a semana inteira torcendo e imaginando pra ver como é que o herói conseguiria se salvar. Quer dizer, esses “ganchos” e outros tantos da linguagem cinematográfica, primordiais para prender a atenção de meus jovens leitores, estão enraizados em minha literatura e são frutos dessa vivência. Assim como o ritmo e os cortes que uso para agilizar as narrativas. Concordo que alguns de meus livros poderiam virar roteiros, mas não foram e nem são escritos com essa intenção – apesar de eu já ter feito dois cursos de roteiros para cinema e TV.
4. Você parece não ter receio de tocar em assuntos delicados nos seus livros para jovens: prostituição infantil, drogas, fanatismo religioso, tortura, corrupção policial, a lista é extensa. Você acha que ainda existem temas-tabu na literatura infantil e juvenil?
Costumo dizer que não escrevo livros “água com açúcar”. Se minhas histórias são passadas no Brasil, meus personagens – logicamente - têm que conviver com as mazelas de nossa sociedade. Acredito que um autor, segundo a letra de uma famosa canção, tem que estar onde o povo está. Ou seja, deve retratar a realidade de seu país, por mais dolorosa que ela possa parecer. Em meus textos, a dor, a perplexidade e a revolta estão quase sempre presentes. Na ficção, ao contrário da vida real, soluções mágicas ou providenciais resolvem os conflitos. Mas, para a grande massa da população brasileira, especialmente as das áreas rurais e periferias das capitais, a luta pela sobrevivência vem assumindo proporções dramáticas. Então, é por isso que costumo abordar temas delicados - mesclando ficção com informações coletadas na imprensa - nos quais meus personagens buscam o direito inalienável de todos: uma vida digna e justa.
Acho que não há mais temas-tabu na lij. Hoje em dia temos livros que falam de tudo: homossexualismo, drogas, aids etc. A censura, geralmente, parte de colégios religiosos que se recusam a adotar determinados livros.
4. Como é o seu processo de criação? Você escreve sempre? Publica tudo o que escreve ou engaveta muita coisa? Quais os seus critérios para decidir se uma história sua deve ou não ser encaminhada para a editora?
Bom, eu preciso de uma idéia. Idéia que pode surgir de uma viagem, da leitura de um livro, notícias nos jornais, fotografias, pesquisas etc. Não sou daqueles autores que partem de uma simples palavra ou de uma inspiração divina. Daí, faço uma sinopse de 3 ou 5 linhas. Depois, pesquiso, anoto e recorto tudo que seja de acordo com a história. A primeira página é crucial. Se sair, o livro deslancha. Se não, desisto.
Faço uma média de dois livros por ano. Quer dizer, estou quase sempre escrevendo. Prefiro escrever de manhã, pois costumo acordar muito cedo. Se estiver embalado, escrevo o dia todo. Se empacar, largo, dou uma volta ou deixo o texto de lado por alguns dias. Às vezes, por causa das viagens e palestras, fico alguns dias sem escrever. Escrevo direto no computador. À medida que escrevo, vou imprimindo as páginas. Gosto de fazer as correções à mão.
Até agora consegui publicar 90 por cento das histórias que escrevi. Não tenho quase nada engavetado. Hoje em dia, depois de vários anos escrevendo, sei mais ou menos qual assunto interessa determinada editora. Mas, às vezes, me engano. Já aconteceu mais de uma vez de um texto ser recusado por uma ou mais editora e ser aceito por outra. Mistérios do mercado editorial...
4. Muitos leitores nos perguntam como publicar seus primeiros livros. Como foi sua experiência como escritor iniciante? Foi difícil? Alguém o ajudou? Quem?
A primeira vez é sempre difícil, não é? Meu primeiro livro, Bichos da África, foi publicado em 87. Não conhecia ninguém do mundo editorial. Tirei 10 cópias (conselho que dou aos iniciantes) e enviei para as principais editoras do Rio e São Paulo. Na época eu não sabia que as grandes editoras costumam receber uma média de 300 originais mensalmente! Bem, meses depois começaram a chegar a as primeiras respostas. Recebi oito pareceres negativos e dois, felizmente, positivos ( Ática e Melhoramentos). A Melhoramentos me fez uma proposta melhor e pronto. O livro estourou! Ganhou uma série de prêmios, inclusive o Jabuti de melhor ilustração (Ciça Fittipaldi), foi traduzido para o inglês, alemão e espanhol. Só no México vendeu mais de 300 mil exemplares.
A minha fada madrinha foi Isis Valéria, que trabalhou como editora da Melhoramentos durante muitos anos. Uma pessoa super importante em minha carreira. Tenho um grande carinho por ela e, também por outras profissionais do ramo, que ao longo dos anos tornaram-se pessoas amigas e muito queridas como Leila Bortolazzi (atual editora da Melhoramentos).
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